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Antonio de Albuquerque
 
Maité

Passava das quatro horas da manhã, ainda escuro, eu caminhava protegido pelas marquises dos velhos casarões da cidade histórica de Manaus. Cidade marcada por antigas construções do século 19, tempo áureo da borracha. Mesmo sob as marquises minha roupa encharcava pela torrencial chuva.

O dia amanhecia numa canção de alegria, eu caminhava encantado pelo raiar do dia. Tinha pressa, querendo chegar ao Rodway, na escadaria, dando acesso ao porto. Ouvia a voz forte dos barqueiros oferecendo bilhetes de viagem para diversos lugares da Amazônia, e eu me sentia liberto para escolher o lugar para onde ir, e sonhando com a viagem pensava onde ataria minha rede, o barulho do motor, as pessoas que conheceria, o balanço do barco sobre o banzeiro e o prazer  por me distanciar da cidade.

Diante da agitação, eu ainda não sabia para onde viajaria, mas por certo pretendia me afastar do rebuliço das ruas. Há muito eu sentia a necessidade de me isolar por algum tempo num lugar tranquilo onde pudesse pensar distante dos meus afazeres diários.  Lia-se numa placa de papelão: barcos  para o baixo Amazonas, Solimões, Rio Negro, Santarém e outros nomes especificando lugares. A que horas sai o barco para Barcelos? Perguntei. — Sete horas, respondeu um moço segurando um papel.

São seis horas, as redes estão atadas no convés da embarcação formando, assim um bonito cenário dos navegantes da Amazônia. Agasalhei minhas coisas embaixo da rede, escolhendo uma boa posição para apreciar a paisagem às margens do Caudaloso Rio Negro. Suavemente o barco navegava e a brisa fresca da manhã acarinhava meu rosto, ora, assustado pela aventura agora iniciada. Deitado na rede admirava a margem do rio e me deliciava com o distanciamento da cidade, sentindo-me liberto qual um passarinho voando.

 Um turbilhão de pensamentos vagueava pela minha mente, porém  mais importante era a viagme trazendo  um praseroso sentimento de liberdade. Contemplei as praias de areia alva do rio, a  floresta, o movimento das águas, a revoada dos passarinhos sobre o rio e as milenares tradições ribeirinhas. Distante da cidade penetrei na força e magia encantadora das águas banhando meu coração na luz da água e das florestas.

 Ao meu lado viajava uma bela jovem índia que chamou minha atenção, ela me olhou com um sorriso encantador, seus olhos tinham o brilho de uma esmeralda, revelando um ser diferente que me fez mergulhar em seus encantos, e sua meiguice desnudou seu interior. — Bom dia, disse a moça. Bom dia, faremos boa viagem à Barcelos, respondi. — Certamente, mas desembarcarei antes de chegar à Barcelos para participar de uma grandiosa celebração. Se  quiseres me acompanhar poderemos ir juntos, e ao regressarmos, embarcaremos aqui, nesse  barco.

Pensarei, acho a ideia interessante, mas preciso saber o seu nome? — Meu nome é Maité, meus ancestrais pertenciam a uma nação que existiu nessa região e falavam Nheengatu, donde se originou meu nome, conservado por milhares de anos, concluiu. A floresta é um mundo diferente do que conhecemos, e quando nela penetro com a licença, examino miudamente tudo ao redor, observando seus mistérios, pelo menos os que eu conheço, visto que dentro da floresta sempre sou um estreante.  Sim, Maité, irei com você, participar da celebração. — Será uma honra. Respondeu a bela jovem. Eu não tinha ideia de como se daria a festa anunciada por Maité, mas alguma coisa me impulcionava  a acompanhá-la e segui minha intuição consciente que nada acontece por acaso.

Viajamos por duas horas e desembarcamos no beiradão, as pessoas acenaram até  o barco desaparecer numa curva do magestoso Rio Negro. Da embarcação os passageiros, gesticulando diziam: na volta levaremos vocês. Tão curta a viagem e eu  já sentia saudade  das pessoas que alegres que viajavam no convés da embarcação, e refletindo sobre tudo que havia vivenciado até ali, fui despertado por Maité.
Prepare-se para uma grande surpresa, sorrindo disse ela. Que surpresa? Perguntei. ─ Boa, mas se revelasse não seria surpresa,  respondeu. Seguimos a trilha caminhando entre sororocas, palmeiras e samaúmas, conversando sobre segredos e mistérios da floresta, o que muito me agradava. Após uma hora de caminhada senti cansaço, e ela sem olhar para trás perguntou: — Quer que eu lhe conduza nos braços? Você não tem resistência, não é um caboclo! Não precisa, vou me recompor, respondi. Ela sorriu sem olhar para mim.

Maité sempre caminhando à frente com passos leves e firmes tal o passo de um felino, mas com simplicidade mostrava beleza graça e sensualidade, o movimento sensual dos seus quadris lembrava o encantador bambolear do voo do gavião rei. Ela conhecia a floresta e caminhava com imensa destreza e elegância, não parecendo tocar nas folhas murchas caídas na terra molhada da chuva da manhã. Paramos  e Maité chamou minha atenção. Pássaros de penugens coloridas pousados numa frondosa castanheira, Sauins brincavam se mostrando, um gavião-rei nos observava do alto dos galhos de uma maçaranduba, eram todos belíssimos e não se afastastaram diante da nossa intrusa presença. Suavemente serenava, a água se espargia sobre as roseiras, onde beija-flores colhiam nectar, assim, formava uma tela da natureza num cenário de ternura e encantamento. A caminhada continuou floresta adentro, sentindo-me leve tal a brisa da manhã, certamente refeito pelo ar puro da mata e nenhum pensamento conduziu-me à cidade grande.

 Fazíamos rápidas paradas comentando coisas da natureza e Maité sempre tinha algo surpreendente a me revelar. sentamos a beira de um igapó entre chacronas nativas e jatobás ouvindo o rumorejar da água mimando os peixinhos coloridos num encantamento que só a floresta nos revela. No alto duma samaúma florida um bem-te-vi cantando anunciava nossa presença. À tarde chegou mansa e calma, e por um longo tempo, permanecemos em silêncio ou falando baixinho para não romper o sossego da  mata. O entardecer e a brisa suave da noite acalentou meu ser conduzindo meus pensamentos a um mundo encantado, num clarão eterno de luz fecunda da lua movedora, vendo o céu atapetado de astros e estrelas. A voz de Maité parecia ecoar no universo quando me pediu para fechar os olhos e enxergar com a consciência.

Uma radiante manhã surgiu num sorriso de alegria, e num ritual de cânticos de alegria e prazer, milhares de pessoas reverenciavam sua rainha. No centro formou-se um belo arco-íris, e entre suas cores enxerguei uma mulher, de beleza radiante, nem vi o tempo passar, embasbacado com tanta beleza, imaginando tê-la nos meus braços. Ela se revelou, era Maité, no entanto, agora, ao meu lado com imensa alegria sorria. Feliz, sentindo um clarão dentro da alma, com Maité caminhei na direção do indômito Rio Negro convicto da existência dos grandes mistérios da natureza. Com os olhos pejados de lágrimas e o coração banhado de luz e sonhos, tive a certeza que nem tudo é matéria densa como imaginamos. Sei que entre a Terra e o céu existem infinitos mistérios e moradas do Grande Arquiteto do Universo.
Antonio de Albuquerque
Enviado por Antonio de Albuquerque em 30/12/2015
Alterado em 23/05/2019


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Imagem de cabeçalho: Sergiu Bacioiu/flickr