Textos


A Luz e o Cavaleiro

Antônio tinha nove anos de idade quando acompanhou o pai conduzindo uma tropa de burros para uma cidade próxima. Habitualmente os tropeiros chegavam cedo aos locais aonde se iniciava a feira. Antes do amanhecer, ao se aproximarem do local da feira agasalhavam os animais num curral à beira da estrada até o dia amanhecer. Dessa maneira, o menino e seu pai procederam, visto que cavalgavam há pelo menos seis horas. O burro que o menino montava não tinha cela, era uma cangalha.

Ele sentava entre dois cambitos, mantendo o corpo ereto para não machucar as costas. Por ser uma posição incômoda, mantendo-se sentado sem proteção sobre a madeira, em poucas horas parecia uma eternidade. A fim de suportar o desconforto, cantava as modinhas que sabia ou chorava baixinho para o pai não escutar. Entre um soluço e outro pedia a Deus que logo chegasse ao destino, ou pelo menos houvesse uma parada para livrar-se daquela sofrida posição, porém precisava chegar à cidade antes do Sol nascer. Era fria madrugada, o menino repousava sobre uma manta ao lado do pai, e extasiado ficou ao avistar uma potentíssima luz se espargindo sobre eles, o pai também percebeu e mansamente aconselhou: — Durma menino! É apenas uma luz.

O menino adormeceu sorrindo, não mais sentia as dores causadas pela torturante viagem sobre a cangalha de madeira. Ao acordar perguntou ao pai: - Qual a serventia da Luz? — Serve para clarear nossa consciência, nosso caminho, e o discernimento. Se o Sol não clareasse a Terra, seria escuro igual a breu. O Sol e as estrelas é quem clareia nossos passos, nossa memória, e também nos faz lembrar a existência de Deus. Você já imaginou se nós não distinguíssemos o mal do bem! Certamente o mundo seria insuportável. Ora, que pergunta! Completou o tropeiro. — Você falou discernimento! O que significa? Pai, você fala coisas que eu não entendo... —Menino! Discernimento é a nossa compreensão, é o que nos faz diferenciar o errado do certo, nos auxiliando a promover nossas escolhas, pois, libertos que somos, podemos livremente escolher nosso caminho. ─ Um dia você entenderá que o homem pode fazer tudo que quiser, mas para caminhar no caminho certo, só deverá fazer o que é para fazer. ─ Pai! O que é o errado e, o que é o certo? — O errado é o caminho torto, e o certo é o caminho de Deus, claro, sem torturas. Compreendeu? Disse o pai. ─ Não pai! Mas vou me esforçar para entender, respondeu o menino. ─ Quem são as estrelas? Perguntou o menino ─ São raios luminosos do Sol. 

Ao morrermos nos transformamos em estrelas, e as que mais brilham são das pessoas que se tornaram iluminadas, a exemplo do coronel João Rodrigues que tem um filho padre, outro médico e um advogado. Dizem até que a estrela do Oriente guiou os três reis magos até Belém onde Jesus nasceu. Essa, sim, é uma estrela poderosíssima. — E onde ela está? — No céu, é claro. Onde poderia estar uma estrela, senão no céu? — Será, então, que a luz que nos clareou era uma estrela? — Claro que sim. O que mais poderia ser? — E se ela tivesse nos levado para o céu? —Ora menino! No céu só entra quem não tem pecado. — Ah! Então minha mãe quando morrer vai para o céu, visto que ela não tem pecado, disse o menino. — Ninguém morre, a morte é apenas uma mudança, quando nascemos para outra dimensão, e livre desse denso corpo, nós viajamos pelo infinito Universo conhecendo as moradas de Deus. Sua mãe, certamente irá para o céu. ─ Chega de perguntas, vamos colocar a tropa na estrada, logo mais o Sol nascerá, mais uma vez. Noutro dia falaremos dessas coisas, disse o pai. — Só mais uma perguntinha! Por que uma estrela iria se mostrar para dois tropeiros? — Ora menino! Não encha minha paciência, os mistérios de Deus têm valores que desconhecemos. Deus sabe que existimos, somos parte dele. Para Deus todos os homens são iguais, tropeiros ou doutores. Jesus nasceu numa manjedoura entre homens e animais, seu pai, José, também era um humilde carpinteiro, pobre, igualzinho a nós tropeiros. Agora chega de conversa, concluiu.

— Já enxergamos as primeiras casas de Santa Quitéria. ─ Ah!... Que linda cidade! Murmurou! A manhã sorria gargalhadas de luz e o vento sussurrava entre os galhos secos à beira da estrada empoeirada. O velho tropeiro admirava as casas enfeitadas com bouganviles. Os tropeiros eram os primeiros visitantes a chegar naquela inesquecível e sorridente manhã, dourada pela Luz do Rei Sol. Para Antônio todo aquele movimento era alegria com sabor de aventura, sentindo-se imensamente feliz. A tropa se acercou do mercado onde permaneceria recebendo farta ração de milho.

O menino, também ali ficara cuidando da tropa, enquanto o pai foi em busca de negócios. O menino observava o mercado central e o intenso movimento dos feirantes oferecendo mercadorias, vendendo ou fazendo troca de animais, alimentos e objetos. Um feirante negociava a troca de uma espingarda lazarina por um jumento. A arma era velha, mas pouco usada, considerando que a fauna era minguada na região. Quem ficasse com a espingarda, ganharia pólvora, espoleta e bucha, material suficiente para produzir vinte cartuchos.

O agricultor argumentava que a espingarda só havia sido usada por lampião quando esteve na cidade testando o artefato. — Sim, Lampião esteve aqui experimentando a espingarda, com firmeza afirmava o sertanejo. Antônio concluiu que em breve chegariam a um bom acordo e, dirigiu-se a uma tenda de artistas, poetas e trovadores; um homem contava histórias, outro declamava versos de cordel, outro se apresentava num teatro com bonecos de pano, fantoches e marionetes, outros cantavam emboladas. As feiras daquela região eram ricas em cultura popular e artesanato, a produção de arte da região era apresentada na feira, assim denominada. Uma escrevente fazia cartas contendo pedidos de namoro e casamento; os rapazes formavam fila para obter as missivas e endereçá-las às futuras namoradas em diversos e distantes lugares do sertão.

A escrevente colocava nas cartas imagináveis palavras que o remetente diria, avaliando pela fisionomia dos remetentes, embora, os dizeres nas cartas fossem quase sempre os mesmos. Em versos a mulher traduzia o pensamento dos rapazes relativo à futura namorada. Noutra barraca uma cartomante adivinhava o passado, presente e futuro. Essa tenda era muito concorrida, por belas moças que passeavam com vestidos coloridos. Visitavam a tenda e, ao afastarem-se se mostravam alegres. Certamente haviam recebido alvissareiras promessas que um dia encontrariam um príncipe encantado em suas vidas. Sobre engradados de galinhas, sentado, o menino Antônio degustava guloseimas preparadas por Dona Justina, mulher de bigode, que por certo não era postiço. Moradores afirmavam que em dia de lua cheia Justina se transformava em lobisomem, mas como seus doces eram deliciosos o menino não resistia à vontade de degustá-los.

Ao falar com Justina, o menino nunca olhava nos seus olhos, pois contavam que, quem os visse se transformaria numa coruja da noite e morreria em quarenta dias. No coreto da praça uma banda de música da prefeitura executava valsas e chorinhos para alegrar a feira que competia com outra próspera cidade. A primeira delas colocada, em organização e negócios sediará a próxima vaquejada, que atrairá grande número de pessoas, negócios e, naturalmente, prestígio e lucro para a comunidade. Para o sertanejo a feira é importante, pois é ali que encontra um jeito de comunicar-se com o outro, adquirindo uma visão ampla e socializada do mundo em que vive. O dia da feira acontece, na maioria das vezes, aos domingos, quando os fiéis católicos assistem à missa e às celebrações de casamentos e batizados. Na cidade ainda não existiam templos de outras sagradas religiões e o movimento convergia para a igreja católica, onde os fiéis pagavam promessas, pediam a bênção do vigário, e outros recolhiam o dízimo para o padroeiro da cidade.

Naquele ambiente festivo, Antônio havia esquecido o sofrimento da viagem, e às dezessete horas regressava sem o pai que ficara concluindo negociações, e após, acompanharia o filho. Estava na estrada apenas, o menino e a tropa de burros. Embora mantivesse em segredo, ele temia viajar sozinho, em especial à noite, visto que em três horas estaria escuro e atravessaria um cemitério. Antônio tinha muito medo de alma, mas apesar disso, continuou em sua montaria cavalgando a galope, queria passar pelo cemitério antes do anoitecer. Silencioso e calmo surgiu o negrume da noite, e o menino adormeceu a sonhar com um cavaleiro montado num cavalo árabe com arreios de prata e ouro. O Homem tinha porte de um rei, beleza de um deus mitológico, e semblante tranquilo, qual o nascer da Lua. Durante o sono Antônio não sentiu medo, e mesmo em sonho foi acolhido por intensa alegria.

O majestoso cavaleiro carinhosamente disse: — Durma que eu conduzirei a tropa. Antônio adormeceu sem sentir o tempo passar. Após horas, chegou à sua casa sem faltar um só animal. Na sequência surgiu um homem na estrada; era seu pai. Quanto ao cavaleiro, ninguém viu. Segredo guardado em sigilo pelo menino por toda sua infância. Quem sabe revelada na próxima obra do autor!


 
Antonio de Albuquerque
Enviado por Antonio de Albuquerque em 05/02/2016
Alterado em 21/03/2019
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