Textos


A Adoção
A infância de Pedro foi marcada por acontecimentos fortes que muito contribuíram para, no curso de sua vida, tornar-se um homem solidário forjando um forte caráter. Ainda criança vivenciou o sofrimento e a morte do irmão Israel. Um menino de oito anos que vivia feliz em seu mundo de imaginação e ternura. Subia a montanha para contemplar o vale, os prados e a revoada dos pássaros sobre o imenso sertão, espetáculo que acontecia com frequência nos meses de maio e junho, período de colheita de mel nas encostas das montanhas. Na fazenda, assistia as vaquejadas, corridas de cavalos e brincadeiras com gangorras.

Era então, uma época de bonança e prosperidade no sertão. No entanto, ao longo de uma estiagem as fontes d’água se esgotaram, e consequentemente a vegetação secou, os animais morreram, e a alimentação escasseou. Israel perdeu a alegria para exercer as brincadeiras de criança e permanecia na esperança que o pai regressasse da caatinga trazendo algum alimento, mesmo que fosse um preá, um passarinho ou até a raiz de algum vegetal resistente à seca, que servisse de alimento. O pouco alimento que obtinham era dividido entre a família, sem esquecer-se dos vizinhos, também famintos. Algumas vezes a mãe cedia seu alimento para um filho permanecendo sem alimentação. Ao anoitecer se reuniam no terreiro da casa, sob a luz da lua e estrelas, agradecendo a Deus por ainda estarem vivos.

Quando não existiam possibilidades de sobrevivência nesse lugar, o pai se ausentou procurando uma fonte de renda em uma frente de trabalho mantida pelo governo. Precisava trabalhar receber o pagamento que seria efetuado em alimentos e voltar a tempo de encontrar a família incólume. Com a viagem do pai a família permaneceu aguardando seu regresso, mas após alguns dias, Israel já debilitado, tendo frequentes desmaios, e ao voltar à consciência dizia para a mãe que o céu era lindo e que ela não perdesse o ânimo, pois o pai voltaria. Em dado momento Israel não resistiu e faleceu. Dias depois quando o pai voltou em socorro da família, o corpo do filho estava sepultado próximo a uma frondosa aroeira. O pai, ajoelhado ao pé da árvore, agradecia a Deus por ainda estarem vivos os outros membros da família. O sertanejo tinha um semblante de sofrimento e dor, com olhos umedecidos contemplava o campo que outrora fora colorido pela relva, flores e borboletas. Mesmo assim amava o lugar, era sua terra, sua morada, seu sertão, seu mundo. O valente homem com olhos fixos no Sol pedia para enxergar o caminho. Ele possuía inabalável fé em Deus e sabia não estar sozinho. Diante daquele cenário de desalento, o casal fez uma avaliação e concluiu que necessitava tomar uma decisão, embora difícil, mas que poderia amenizar a angústia.

Os pais resolveram dar para adoção o filho Pedro. Temiam que ele, mesmo sendo um garoto sadio, tivesse o mesmo destino do outro filho, que não resistiu à estiagem. Existia uma família com condições financeiras para criar Pedro que havia demonstrado interesse em adotá-lo. Seus pais, que antes resistiram à ideia, agora pensavam em salvar a vida do menino, por saberem que o filho seria alimentado e salvo da morte por inanição. Os pais tinham consciência que aquela decisão seria a mais difícil de suas vidas. Era noite e Pedro dormia. Os pais conversavam baixinho, a mãe chorava embora convicta que aquela seria a melhor solução. O pai a consolava, dizendo que seria melhor para o menino. Ao amanhecer a cigarra cantando anunciava um dia sem chuva e calor abrasador. A mãe olhando o filho famélico, nada possuía para saciar-lhe a fome. O pai no terreiro fitava o Sol dizendo: — Oh! Deus Sol, abençoa-me, faz cessar minhas lágrimas e angústias, ilumina meu caminho, preciso de força e coragem. O homem falava com Deus pedindo sua compreensão por ter que tomar aquela deliberação. Ele não se sentia desamparado por Deus, mas sofria com os olhos pejados de lágrimas. No entanto, firmava o pensamento querendo resolver o impasse. Ao romper da aurora, sem pressa o casal caminhava numa estrada estreita entre arbustos secos e contorcidos pelo intenso calor. Ao longo da estrada avistavam-se carcaças de animais que haviam perecido pelos efeitos da seca, calangos buliam nas folhas debaixo das árvores mortas, no alto o Sol parecia uma manopla de fogo. O pai seguindo à frente, Pedro ao lado com passos curtinhos de criança, ainda não entendia porque havia deixado para trás, a casa e os irmãos. A mãe amiudava os passos, por não ter pressa nem lágrimas, e caminhava lentamente, mas era forte qual pau de aroeira. O menino, ora ao lado do pai, ora da mãe, ou nos braços de ambos, não entendia o porquê de tanta aflição.

O coração batia forte, sentindo medo de se separar dos pais. Na sua compreensão se houvesse uma separação seria o fim de sua vida. A mãe havia falado que ele ficaria apenas por uns dias morando na casa de dona Mendonça e com a chegada da chuva voltaria para casa, porém Pedro se sentia rejeitado e chorava baixinho para ninguém ouvir seu lamento, tinha aprendido que homem não chora. Mera ilusão. A mãe abraçava o filho, sentindo o pulsar do corpinho raquítico naquele momento de tristeza. Havia perdido um filho e sentia estar perdendo outro. Chegara o momento de entregar Pedro para adoção, o que lhe magoava o coração tão sofrido. Depois de uma curva na estrada, avistaram uma casa branca de varanda com algumas roseiras e a mãe falou para si mesma: — Como ela pode ter uma roseira, se não temos água nem para saciar nossa sede? ─ Tudo que eu não queria está se consumando, falou baixinho para si. A mãe não tinha lagrimas para chorar, apenas baixinho articulava palavras. Finalmente pararam, e em silêncio entreolharam-se, mantiveram-se calados e, a chorar se abraçaram. Dona Felina, a mãe, não queria aquela separação, as poucas lágrimas que surgiram molhavam seu rosto cansado. Ela não reclamava, apenas chorava por ter de abdicar do filho, mas em seu coração de mãe amorosa existia alguma esperança. Talvez dona Mendonça tivesse mudado de ideia ou não estivesse em casa, mil pensamentos borbulhavam sua mente esperançosa e valente. — Santíssima mãe escuta minhas preces, me poupa dessa aflição! Rogava a aflita mãe.

De repente o céu foi tomado por nuvens pesadas com relâmpagos e trovões anunciando uma chuva. Extasiados contemplavam a força da natureza. Havia dois anos que não chovia. Subitamente nasceu entre eles uma infinita esperança, uma extraordinária força, uma nova perspectiva, a chuva, a água, a vida. Surgiu do mar de lágrimas daquela mãe uma imensa felicidade. Pingos d’água se espargiam sobre eles quais fragmentos de vida. A água penetrava na terra gretada da estrada. Momentos depois, molhados, famintos, abraçados, felizes e sorrindo caminhavam de volta para casa. O menino corria à frente dos pais com um corpinho macérrimo, esfaimado, mas cheio de esperança e alegria, sentindo o cheiro da chuva ofertada pela natureza. No sertão é assim, quando chove tudo se renova, todos voltam para suas casas, para plantar a semente do milho e do feijão. A esperança renasce, os campos enverdecem, as flores desabrocham, os homens e animais se alegram com a mudança. A chuva transformou o lugar estéril num gracioso vergel entre campos verdejantes e floridos. A catingueira florou, as roseiras se abriram e, na encosta da montanha, os ipês mostraram flores lilás, azuis e amarelas. Os pássaros cantando anunciavam um novo momento de progresso no curso do tempo. Criança ainda, Pedro sabia que aquela manifestação era obra do Criador mostrando sua sublime grandeza.

Permaneceram no sertão por algum tempo voltando a usufruir de tudo que possuíam antes; plantações de milho, feijão, algodão, um açude com muita água, gado, cabras, ovelhas pastando no campo e a alegria de ser feliz. Nas noites lindas naquele belo lugar, especialmente em dias de lua cheia, quando a vitoriosa família se reunia no terreiro da velha casa de tijolo aparente ao resplendor da luz da lua. O pai, dedilhando as cordas de um violão, tocava lindas canções sertanejas. Contavam belas histórias lembrando como haviam sido vitoriosos diante dos desafios e como havia sido fácil vencer. A mãe contemplava o céu estrelado, lembrando-se das palavras do filho Israel que havia partido: — Mãe, o céu é tão lindo! O pai ao dedilhar as cordas do violão falava palavras que lhe vinham à mente congestionada por sentimentos de vitória e gratidão ao Criador:

 
Na venturosa e efêmera vida
Quando em matéria densa
Do imortal espírito
O sofrimento é a semente
O fruto é a esplendorosa salvação
Da consciência de todas as existências
Que acolhe inumeráveis recordações
De ditosas passagens pela terra
Caminho para desvendar mistérios
Nas mansões do infinito Universo
Numa ternura que alenta a vida
Por uma sublime e nova lição
Desarraigando as imperfeições
Buscando a felicidade e alegria
A Bem-aventurança.
Antonio de Albuquerque
Enviado por Antonio de Albuquerque em 28/03/2016
Alterado em 22/03/2019
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