Textos

 
 Antonio de Albuquerque
Abril de 2018

Serrazul

Em viagens curtas costumo viajar de ônibus apreciando a paisagem do sertão que me traz belas recordações da minha infância quando vivia em Serrazul, lugar situado num platô, no alto duma montanha. Ao entrar no ônibus rezei para dividir um assento com um bom conversador, e assim aconteceu. Quando sentei ao lado do professor Abreu, percebi ser ele um homem de boa conversa, tornando a viagem rica em aprendizado e mais prazerosa
Subi a montanha e em duas horas cheguei a Serrazul. Quase nada havia mudado; a pracinha, a Igreja, o mercado, a Delegacia e com um destaque, o bonito cemitério “campo Santo” como assim é denominado por seus moradores, no entanto meu desejo era chegar à fazenda Santa Izabel de propriedade de Manuel Tora aonde meus sobrinhos me aguardavam, pois sempre os visitava estreitando os laços de amizade que venho procurando efetivar ao longo dos anos. Então solicitei ao Zé Bodega, homem servidor que conhecia desde menino, que conduzisse minhas coisas no seu jumento e avisasse ao Tio que eu havia chegado, e iria a pé. Assim, eu caminhando teria tempo para admirar a estrada que percorri com meus pais nos tempos de menino, e assim o fiz, conduzindo apenas alguns objetos de uso pessoal, Zé Bodega seguiu à frente montado no seu jumento e eu fiquei mirando aquela figura conhecida por todos do lugar.
Caminhei por meia hora passando pelo cemitério da cidade, por sinal um lugar bonito, com as sepulturas e muros pintados de branco e bouganviles em torno. Pelo portão entrava um carro de boi conduzindo um caixão preto, olhei e logo imaginei; mais um irmão seguindo para o céu. Meu reloginho marcava 16 horas e calculei que antes da noite surgir chegaria à fazenda. Continuei caminhando e logo encontrei conhecidos, parei para conversar e quando me lembrava da hora que se aproximava da noite, me dava uma vontade imensa de chegar logo à fazenda Santa Izabel, nome esse em homenagem a uma tia já falecida. Confesso que ainda sinto medo de alma do outro mundo, talvez seja um trauma de infância e imagino que em Serrazul poucos sabem dessa realidade, acho mesmo que morreria de medo se encontrasse uma alma desencarnada, e essas velhas estradas são do tempo do Império e testemunharam muito sofrimento das pessoas da época que eram ainda muito embrutecidas e cometiam crimes bárbaros, uma energia ruim que ainda hoje está presente no lugar.
Um homem que caminhava a passos lentos me chamou pelo nome e conversando caminhamos juntos, ele era o mesmo homem que comigo, conversou ao longo da viagem. Perguntei seu nome ele me respondeu ser o mesmo Abreu que eu havia conhecido na viagem, reconheci meu engano, ele sorriu e continuamos caminhando até ele entrar por uma estrada estreita e escura, seguindo para sua morada, mas antes me recomendou procurar chegar à fazenda ainda com a luz do Sol, então eu pensei; se ele fez tal recomendação é porque tem alguma coisa que eu não conheço, e senti um tiquinho de medo... Apressei o passo, e acompanhei uma mulher que caminhava a passos ligeiros, tal qual eu andava, e pensei, agora tenho boa companhia e seguiremos juntos.
O negrume da noite chegou com seu manto tal qual a graúna, mas continuamos conversando e caminhando no mesmo ritmo até eu perceber que a estrada estava escura e perguntei à senhora qual era seu nome, ela então me respondeu, dizendo ser Izabel minha tia e completou dizendo que ninguém morre que a morte é uma ilusão, uma passagem, apenas mudamos de lugar, e pediu para eu toca-la para confirmar suas palavras. Toquei, ela estava fria e sorriu para mim dum jeito grotesco que mais parecia uma visagem, gesto suficiente para me fazer correr apavorado qual um louco e Izabel atrás de mim. Quanto mais eu corria, mais ela chegava atrás me fazendo sentir um cheiro forte de alecrim. Tropecei rolando na estrada, ela rolou por cima esfregando seu rosto mortificado ao meu, aos gritos desesperado pedindo socorro ao Criador e rezando para aquilo ser apenas um sonho. Então, percebi que já estava no terreiro da fazenda e desmaiei. Ao despertar as pessoas perguntavam o que havia acontecido, visto que eu estava num estado deplorável, sujo, com a roupa rasgada e os olhos esbugalhados, havia perdido a camisa e um sapato e meus pertences.
Zé Bodega falando que eu havia me encontrado com a Tia Izabel falecida há dez anos e sorrindo com deboche afirmando que eu era um sujeito muito medroso e frouxo e nem merecia a calça que usava. Meu tio Manuel Tora, então, perguntou com quem eu falava e respondi que falava com Zé bodega que trouxe para cá minha bagagem, e Manuel Tora me afiançou que Zé Bodega havia falecido a um ano de tanto beber cachaça e agora vivia perturbando as pessoas, e que minha bagagem ele mesmo, Manuel Tora havia trazido em razão de eu haver esquecido na loja do seu Aragão. Manuel Tora afirmou ainda que também existia uma entidade que se chamava Abreu, professor que havia passado desta para outra e agora se passava por vivo conversando com as pessoas. Com medo das coisas que aconteceram inesperadamente, refleti: É preciso ter cuidado, a gente nunca sabe... Existem muitos mistérios que ainda não desvendamos.
Antonio de Albuquerque
Enviado por Antonio de Albuquerque em 10/04/2018
Alterado em 05/06/2018
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Imagem de cabeçalho: Sergiu Bacioiu/flickr