Textos

Mistérios da Montanha do Frade


Circulava o vento frio das manhãs sertanejas, o Sol despontava trazendo a sua luz dourada sobre um vergel coberto de malva com flores brancas, borboletas com voos suaves sobre as flores e um sabiá gorjeando no galho da aroeira cheirosa, pintavam, assim, uma tela característica do frescor e beleza da  sorridente manhã no terreiro da centenária casa de tijolo aparente onde vivi quando criança. Lembranças dum saudoso e inesquecivel passado invadiu minha mente congestionada por pensamentos do tempo de menino. Parecia ouvir o rugido do gado no curral, a voz do meu pai ordenhando as vacas e minha mãe caminhando em direção ao curral das ovelhas, conduzindo galhos de canafista para alimentar os animais e o incessante ladrado do cachorro Burlante. Eu achava minha mãe bonita e me perdia no tempo, apreciando seu jeito simples de falar e de me afagar com carinho e brandura especialmente quando meu pai falava mais severo comigo, devido as minhas travessuras de menino.

Com olhos rasos d`água sem olhar para trás caminhei por uma estrada estreita, que por ela eu chegaria a um lugar denominado barreiro velho, outrora uma nascente d’água limpa, agora, tão somente um barreiro seco. Parei para refletir e lembrei-me de minha vivencia quando criança naquele lugar, depois caminhando, encontrei o lugar aonde meu cachorro Burlante foi sepultado, próximo a acácia florada. Quanta saudade! Continuei caminhando subindo a montanha, lugar dos meus sonhos e lembranças encantadas e guardadas no céu da minha memória. Eu e Eln nos sentamos para a primeira refeição; Café, leite pão de batata e mel de Jandaíra. “Lembra-se desse lugar?" Perguntou Eln, respondi que não, e ele me lembrou que ali eu havia falado com açucena, a flor encantadora que eu vi quando criança.

Estranhei! Não imaginei que ele tivesse conhecimento de um acontecimento entre mim e a flor. Voltei no tempo sentindo saudade e, olhando para uma aroeira, reconheci que ela fora testemunho do meu encontro com Açucena. O vento sussurrava entre as flores da aroeira quais segredos revelados e a brandura do momento acariciava suas folhas ainda molhadas pelo orvalho da manhã com cheiro de saudade que nunca saiu de mim. De alegria chorei, admirando a perfeição do espírito materializado, sendo este a maior obra de engenharia genética criada por Deus, agora, aguçava minha memória lembrando como dirigi a palavra à flor, e alegre lembrei-me das palavras pronunciadas há muito tempo, e continuei caminhando seguido por Eln que parecia me observar, e assim, chagamos ao planalto da Montanha do Frade como fassim,foi denominada pelo povo do lugar.

Eu nem imaginava que possuia todo aquele cenário guardado na minha mente; estava ali à cabana com paredes de pedra, naturalmente sem cobertura de palha, os vestígios do curral onde minha mãe guardava as ovelhas, vestigios do lugar aonde existia o plantio de milho e o galpão aonde debulhávamos as espigas de milho e as vagens de feijão, colhidas nas plantações locais. Lembrei-me, ainda, das fisionomias de pessoas falando, sorrindo e conversando sobre coisas da colheita e também das cantorias e do Cordel trazido por meu pai e versado nas noites claras de lua cheia, ☺ quando dedilhava as cordas do violão numa sonoridade indelével.

Eram duas horas, ocupamos a cabana de pedra, e após a natural limpeza e a certeza da ausência de répteis sentamo-nos para fazer uma refeição e festejarmos a chegada ao topo da montanha do frade, para mim muito misteriosa. O alimento era o mesmo, pão, batata doce, queijo e mel de abelha. Colocamos o alimento sobre uma pedra e fizemos uma prece rogando ao Criador que nos desse sua guarnição. Deitei sobre as pedras olhando o Sol e sua luz se espargindo arrancando uma poeira aura no espaço infinito, eu tinha os olhos banhados de saudade. Estava a quatro mil quilômetros de distancia do Tapiri onde vivo nos confins da Amazônia Ocidental.

O misterioso Eln falava sozinho e eu tive a impressão que falava mesmo com alguém. Era comigo, informando que tínhamos visitas. “Em breve chegarão, duas pessoas”. Quem poderia me visitar naquele ermo lugar, quem seriam elas eu só saberia depois. “Boa tarde, meu nome é Samuel e esta é minha sobrinha Raab. Moramos em Telavive, Israel, não se lembram de nós? ” Que pergunta fora de contexto fazia Samuel! Mas agora ele e Raab eram visitantes e eu nem sabia porquê. Mas ... “Como chegaram aqui”? Perguntei, e eles me responderam; “igualzinho a vocês, caminhando” Raab era muito bela e tinha um semblante jovial. Mansinha e suave tal o voo do gavião a tarde chegou num sorriso de ternura, e o longínquo cantar da acauã foi se distanciando, e anunciando que uma linda noite se avizinhava.

Samuel e sua sobrinha Raab eram docentes na Universidade de Telavive em Israel e estavam guiados pelo pensamento de um encontro na Montanha do Frade. Em hebraico ou português Samuel se comunicava e Raab em fluente francês, só eu pensava entender, mas logo percebi que o misterioso Eln entendia melhor do que eu e pensei; da próxima vez ele não mais virá comigo .... Procuramos um lugar confortável e juntos esperamos o clarão da noite chegar, tudo entre nós era segredo e mistério, mas tínhamos uma coisa em comum, de alguma forma sentíamos havermos marcado um encontro naquele lugar, estávamos guiados pela força do pensamento. Tínhamos uma ideia em comum e nos deixamos conduzir, atraídos pelo pensamento de que havíamos planejado em algum momento, fora da matéria dirigidos pela força das Leis universais pelas as quais somos guiados.

Tal a mansidão do sereno da madrugada o anoitecer veio surgindo e conduzindo a claridade e o resplendor da Lua cheia. Calmos e serenos adormecemos sobre intensa claridade, semelhante ao Sol clareando ao meio dia. Nós nos concentramos na Luz da Lua e fomos conduzidos ao espaço e de mãos dadas, Eu, Eln, Samuel e Raab, formamos um grandioso círculo num Universo de luz e extrema claridade visitando lugares na órbita do Sol. Eu enxergava meu corpo sobre as pedras, mas também no espaço junto aos meus companheiros me enxergava. Em certo momento perdi a vontade de voltar para a Terra, mas Eln me advertiu dizendo que ali ainda não era meu lugar. Nessa viagem minha memória se expandiu e pude compreender alguma coisa da Natureza enxergando, assim a razão de eu estar no planeta e também minha pequenez, mas também confirmando que o homem está conectado ao Criador e que nunca está sozinho, e que sem a matéria densa que veste, suas potencialidades são potencialmente imensuráveis.

Despertei numa manhã de luz e ternura com o Sol dourando a montanha, e eu, sorrindo com alegria e um bem querer e olhando para Raab, vi seu semblante de pureza. Eu estava embasbacado com tanta beleza naquele acontecimento único em minha vida. Samuel meditava e Eln me olhava como quem quer dizer adeus e falou assim; olhem as estrelas e subindo desapareceu no céu anil, e eu, traduzindo seu sentimento compreendi que ele apenas veio me mostrar que pelo pensamento podemos materializar o que queremos e assim, deduzi que havíamos nos encontrado fora da matéria e havíamos planejado todo o acontecimento dentro da força da natureza Divina com o intuito de mostrar a minha realidade como espírito na matéria.
Descemos a montanha e lá estava Emanuel me aguardando e dizendo; “Tio você é um irresponsável, meio mundo já telefonou querendo saber onde você estava. Pelo menos escreveu alguma coisa”? Tenha calma garoto, a Terra ainda está em formação, logo estaremos na capital. Me despedi dos meus novos amigos, mas ao estender-lhes a mão e abraça-los, eles sorriram e qual encantados sumiram na Luz do Sol, dizendo até a próxima. Fiquei meio tonto, mas compreendi como sendo segredos e mistérios da Natureza e respondi, até a próxima.











 
Antonio de Albuquerque
Enviado por Antonio de Albuquerque em 26/05/2018
Alterado em 05/06/2018
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Imagem de cabeçalho: Sergiu Bacioiu/flickr