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Velozmente o veleiro Caranguejo, pois esse era seu nome, comandado por Vitor, velejava nas águas do mar do Caribe, quando subitamente a viagem foi interrompida ao surgir no horizonte duas embarcações que se destacaram por ser um modelo secular.  ─ Vejam!! É um veleiro com três mastros e um barco menor de apenas dois mastros, disse Marina. ─ Realmente, é um veleiro e uma corveta, mudaram o curso e estão em nossa direção, adiantou o capitão Gonzalez ─ Veja se os identifica, pediu Vitor. ─ Já reconheci, são de pequeno porte e vêm em alta velocidade; o veleiro está à frente um quarto de milha, respondeu o imediato. O barco maior aproximava-se em alta velocidade e de binóculo Vitor enxergava a tripulação e os canhões a bombordo. O outro era uma corveta e parecia interceptar o veleiro que navegava em direção ao Caranguejo. De repente, sumiram da tela sem dar sinal de suas presenças na área. ─ Estranho, disse Gonzalez chamando a atenção de Vitor. Mas, de repente enxergaram a tripulação do veleiro e da corveta no visor. Mais distante, a corveta procurava interceptar o veleiro de três mastros. Enquanto no veleiro apareciam no deque pelo menos dez tripulantes, na corveta apenas três pessoas eram vistas no convés. ─ Estranho, o comandante maluco, pensa enfrentar um barco de três mastros? Será destruído em poucos minutos, disse Vitor. ─ Parecem barcos de instrução, disse o imediato. ─ Estamos enfrentando um fenômeno difícil de explicar. Essas embarcações são do século XVIII, podemos identificar, disse Vitor. ─ É verdade, tudo leva a crer que teremos muito barulho
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O veleiro manobrou disparando os canhões contra a corveta que manobrava saindo da linha de tiro, procurando cada vez mais aproximar-se do veleiro. O capitão Gonzalez procurou mudar o curso, mas lembrou-se que não deixaria a embarcação a mercê do barco armado com canhões e resolveu de comum acordo com Vitor permanecer próximo a batalha, para se necessário, intervir em solidariedade a corveta. Os tiros não atingiram a corveta que estrategicamente manobrava sempre fugindo dos tiros de canhão. Um detalhe chamou a atenção; a corveta só transportava três tripulantes e olhando mais de perto se confirmou. Percebeu tratar-se de um homem de cabelos brancos, uma mulher e um rapaz que deveria ter vinte anos. Vestia calça branca, sem camisa, pés descalços, corpo atlético, rosto fino e cabelos loiros esvoaçando ao vento. No semblante trazia um sorriso e coragem, na cintura uma espada reluzente, parecendo um pirata dos contos infantis.

─ Meu Deus! Ele está abordando o veleiro! Não tem juízo, será trucidado; será que pretende enfrentar toda àquela tripulação? Disse González. ─ Maluco ou não o jovem lutava bravamente; vamos auxiliá-lo, ele vinha nos socorrer, íamos ser atacados pelo veleiro, vamos nos aproximar a bombordo. Eu e Massumi vamos para bordo e você fica no comando. Garcia e as mulheres vão para os camarotes; não podemos deixar esse  jovem morrer, disse Vitor. Ao se aproximarem, Vitor viu o rapaz enfrentando os dois últimos marinheiros. Com uma espada o jovem arrostava os adversários com imensa facilidade e fez sinal para Vitor não entrar na luta. O convés do veleiro do pirata estava repleto de homens caídos. Vitor recuou acenando para o rapaz que a essa altura incendiava o barco o barco pirata, seus três mastros foram convertidos em chamejantes chamas. O rapaz saltou para o convés da corveta e abraçado ao casal de idosos assistia o afundamento do veleiro e sorrindo dizia em voz alta: ─ Vencemos. O jovem havia vencido e os tripulantes estavam perplexos, diante da luta travada pelo intrépido marujo contra o barco de piratas. O Caranguejo estava a trinta metros da corveta e Vitor pôde ver bem de perto o marinheiro com cara de menino e feições nobres que para ele sorria─ Como é seu nome, perguntou Vitor. ─ Stuart, respondeu o jovem. ─ Por que nos salvou? ─ Você merece, é uma longa história, um dia nos veremos, disse o rapaz. Sou um corsário, lhe devo a vida, já estivemos juntos em outras batalhas, inclusive noutros mares bem distantes, concluiu Stuart.

 Laura chorava sem saber a razão.  ─ Como tudo isso pôde acontecer! ─ Ainda não tenho explicação, não se aflija tudo passa. No futuro teremos muitas histórias para contar. O Sol rolando pelo céu formando um círculo de fogo declinava, e a tarde descia calma qual o nascer da Lua. Marina e Garcia com um terço na mão rezavam e, juntos diziam: ─ isto é coisa muito esquisita. — Garcia murmurava: ─ Preciso beber mais um copo de rum. Entre eles havia unanimidade; Garcia nesse episódio não havia sentido medo e tranquilamente testemunhava um misterioso acontecimento.  ─ Festejaremos a grande vitória de Stuart com um jantar, anunciou o comandante. ─ Boa ideia! Respondeu Massumi Teria sido tão somente uma aparição? Teriam eles penetrado noutra dimensão? Ou seria uma recordação coletiva? Pergunta que os tripulantes faziam a si mesmos. Mas, de uma coisa Vitor tinha certeza; não navegava sozinho nesse misterioso mar. Pensou em convidar os companheiros para voltar, mas algo lhe impulsionou a ir muito mais longe, como se alguém dissesse, vem, vamos conhecer o mar e seus encantos. Não havia clima para derrota, mas a viagem continuaria até quando? Aconteceria algo que a impedisse? ─ O que fazemos? Nosso grupo parece assustado, perguntou o comandante. ─ Não, nessa experiência coletiva que experimentamos colhemos bons frutos e juntos, adquirimos conhecimentos que nos acompanharão por toda a vida. Certamente estamos resgatando vivências de outras passagens por esse planeta. À vida constitui-se num mistério, aliás, para nós é o maior deles. Portanto precisamos usar a visão da alma enxergando além das aparências, buscando no mundo invisível mais compreensão para as manifestações com as quais nos deparamos e que precisamos compreender cada vez mais, concluiu Vitor.
A noite, o grupo estava reunido no convés comentando sobre os últimos acontecimentos, Vitor falava que a aquelas férias eram as melhores de sua vida, nem imaginava o que veria pela frente. O plano consistia em ancorar numa ilha paradisíaca, depois navegar num mar de infindos mistérios. Muitos desafios ainda aconteceriam envoltos em segredos naquela inolvidável viagem pelos recantos do Caribe. ─ Vitor, fale dessa região tão cheia de encantos que você conhece tão bem, pediu Laura. Vitor respondeu dizendo que o mar do Caribe já foi palco de diversas batalhas e, em suas águas muitos homens perderam a vida buscando riquezas, domínio e poder. Piratas e corsários de diversas nacionalidade pilhavam navios e cidades por iniciativa própria ou a mando de outros países. As ilhas que formam o Caribe foram descobertas pela Espanha, razão de descontentamento e inveja por parte de países do velho mundo. Insatisfeitos, então, veio à resposta ao domínio da poderosa Espanha, vindo de nações que promoveram a pirataria em busca de domínio econômico para satisfazer suas luxúrias desnecessárias em palácios na Europa. Eram párias de uma sociedade da época. Mas, tudo aquilo eram problemas sociais daquele século. Para o povo parecia normal, promover guerras, conquistar cidades e países, como hoje fazem descaradamente algumas nações ricas em conluio com outras também poderosas que funcionam como filiais uma das outras.

Certa vez, navegávamos num veleiro bem maior do que esse, mas muito lento e com apenas três tripulantes cruzamos uma situação muito estranha; no café da manhã, falávamos sobre esse assunto quando ouvimos um intenso marulho a bombordo, que mais parecia a manobra de uma baleia. Em uma onda surgiu à imagem de uma mulher, e quando a água espumante baixou, ela veio até nós, e comunicando-se em espanhol disse sentir-se contrariada com nossa presença naquela zona. Afiançou ser dona de um grande navio que ali afundou e até àquele momento ela não havia conseguido um parceiro para retirar seu veleiro e sua valiosa carga de porcelana, prata e ouro do fundo do mar. Navegamos com a mulher por alguns minutos procurando fazê-la entender que pertencíamos à outra época. Cética, ela custou a acreditar que estivéssemos no futuro, isto é, no futuro para ela. Mas convencendo-se desapareceu tal qual surgiu. Guardamos em segredo porque jamais alguém acreditaria nessa história. Os piratas negociavam tudo que roubavam; mercadorias, escravos e drogas; também sequestravam mulheres e autoridades em busca de resgate, e quando não acontecia o resgate, os corpos eram resgatados em Ilhas. 

─ Não é sem propósito que estamos navegando nesse mar de mistérios; é lógico que algo nos conduziu para esse lugar, não existe coincidência, as coisas acontecem porque existem e, muitas vezes, além do que podemos compreender. Não estamos aqui, somente pelas belezas da região. O mar possui mistérios, histórias e lendas que nos fascinam e essa energia nos conduz para esses lugares encantados, mundo invisível para alguns. É possível que entre as pessoas aqui presentes não exista um só que não haja convivido conosco em vidas passadas, não é à toa que nos sentimos atraídos pelo mar e dentro dele nos sentimos em casa. Para passarmos a outra dimensão é só encontrar a porta do passado ou futuro. 

A viagem prosseguiu sem novidades. O mar sereno, o barco navegando estabilizado e os passageiros se divertindo, promovendo festas a fim de tornar a viagem cada vez mais agradável. No entanto queriam pisar em terra firme sentindo saudades do continente. Em poucas horas navegariam no mar das Caraíbas e, com as histórias que Vitor narrava crescia a expectativa visando a novas aventuras. O que poderia acontecer nesse mar tão misterioso e às vezes até sombrio?  Só o tempo revelaria. ─ Estou pensando em Stuart, bom seria se ele chegasse para o jantar, disse Laura. ─ Stuart está noutra dimensão, noutro mundo, mas tudo é possível, nunca imaginamos que iríamos nos deparar com piratas e sermos salvos por um jovem de outra dimensão, disse Vitor. ─ Será que existem realmente mundos paralelos? ─ Sim. Quando falam é porque existe, nós estamos vivendo essa realidade, fizemos contato com piratas e com um jovem que com ele conversamos, e sabemos até seu nome. ─ Será mesmo que já habitamos outros lugares no universo? Perguntou Laura. ─ Claro que sim! Quando chegamos ao planeta terra, de onde imagina que viemos? O Criador tem muitas moradas e nós sabemos que somos mais velhos que a terra. Pense em outras possibilidades, minha querida Laura, respondeu Vitor. Avistaram uma belíssima Ilha paradisíaca e para lá velejaram. Certamente se deparariam com novos mistérios. Afinal na vida tudo é mistério!!!
 
 
Antonio de Albuquerque
Enviado por Antonio de Albuquerque em 29/05/2018
Alterado em 13/06/2018
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