Textos

Antonio de Albuquerque 30.06.2018
 

Viajando por essa fascinante Amazônia não me canso de admirar a inigualável beleza de suas florestas, rios, igarapés, igapós, corredeiras, cachoeiras, suas lendas e seu misterioso povo indígena riquíssimo em cultura milenar. Chegando à região do auto Rio Negro sinto estar em um mundo encantado, conhecendo novas nações indígenas, escutando com naturalidade diversas línguas; Nheengatu, Baniwa, Tucano, entre tantas, parecem todos iguais, mas existe enorme diferença entre esses povos que só percebemos suas qualidades ao longo do tempo, ouvindo suas histórias, suas lendas e conhecendo seus costumes. Nessa viagem cheguei a uma pequena e misteriosa aldeia fincada no meio da floresta onde um povo originário de uma antiquíssima civilização vive e preserva antigas tradições movidas pela força das águas e mistérios da floresta.

Passava do meio dia, abarranquei o barco e logo estava cercado pelos moradores da Aldeia, curiosos, queriam saber o que eu havia trazido para eles. Entreguei-lhes algumas coisas e me dirigi a casa do responsável pelo lugar pedindo para falar com Katuasawa (quer dizer bom em Nheengatu) ele veio até a mim, nos abraçamos e fomos para sua tenda encontrar sua neta Yasigi, que guardava consigo um mistério milenar preservado como tradição pela sua família, sendo ela a derradeira descendente dessa civilização; minha boa amiga, Yasigi doutora em antropologia que anualmente nos encontramos para celebrarmos juntos um misterioso acontecimento, trazendo para seu povo muita fartura, fertilidade, progresso espiritual e material. Yasigi é um símbolo de beleza, tem cor indígena, pele aveludada, olhos verdes, mansidão na fala e um corpo escultural quase atingindo a perfeição, imagem do sonho do mais exigente escultor. Apressei-a lembrando da celebração das águas e florestas, e ela confirmou nossa saída para às 15 horas.

Caminhamos de mãos dadas, sendo essa uma tradição do seu povo, mas quando a trilha estreitava, ela ia à frente, o que me proporcionava o prazer de admirar seu lindo caminhar, parecendo o bambolear de um alce. À tardinha paramos para observar o cântico sincronizado dos Tucanos e o piar de outros pássaros anunciando a noite que se avizinhava. Paramos à beira de um pequeno lago cristalino, sentamo-nos admirando o espelho d´água e os peixinhos coloridos a se acarinhar, no alto uma imensa revoada de araras azuis coloriam o céu, no chão molhado atapetado de folhas caídas, sobre as folhas insetos disputavam um espaço promovendo metamorfoses naturais, sobre sororocas e palmeirais, bem-te-vis piavam marcando presença no lugar.

Yasigi sorriu e fitando-me com seus lindos olhos verdes pedindo para eu abraça-la com todo o fervor, e eu o fiz sentindo toda a felicidade que um homem pode conhecer dentro do seu limite de prazer. Num doce arrebol o Sol desceu no poente e a noite chegou silenciosa, tal o sereno da madrugada, surgindo no céu a Lua cheia resplandecendo e prateando a água do belo lago cristalino. Yasigi segurou minha mão e juntos cantamos louvores a Natureza, e assim, penetramos no mundo encantado das águas e florestas, sentindo o perfume natural das flores, o rumorejar da água e o sublime cantar dos pássaros da noite.

Yasigi cantando louvores e caminhando sobre a água do lago, agora enfeitado de luz e arco-íris segurou minha mão e juntos caminhamos, ora sobre a floresta ou sobre a água e por belíssimos lugares, nas florestas e rios cobertos de flores perfumadas e luzes multicores. Centenas de pessoas de pé sobre a água reverenciavam Yasigi como sua amada rainha e rogavam por saúde, prosperidade e fartura para todos os habitantes da aldeia.

Estávamos numa dimensão onde tudo parecia uma matéria com pouquíssima densidade, onde alegres algumas pessoas levitavam e outras caminhavam por cima da água tendo um corpo análogo ao meu. Eu me senti imensamente feliz ao lado de Yasigi sem sentir o tempo passar. Sorrindo e abraçados assistimos ao nascer um novo dia em plena floresta de encantamentos. O Sol proporcionou um novo arrebol e felizes caminhamos de volta à nação Ianomâmi.

Esses fenômenos que juntos vivenciamos são segredos e mistérios nossos, guardados em sigilo. Entre a Terra e o céu existem muitos mistérios e segredos a desvendar. A floresta amazônica é um grande mistério. .
Antonio de Albuquerque
Enviado por Antonio de Albuquerque em 30/06/2018
Alterado em 01/07/2018
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