Textos


Antonio de Albuquerque
O Morto Ressuscitou
 
Vitor recebeu a missão de retirar do território cubano, Herrera, um homem marcado por uma quadrilha internacional que desejava obter documentos de segurança e códigos secretos que estavam em seu poder, nessa luta Vitor e sua tripulação haviam sido vitoriosos, e agora após a contenda, velejavam em águas internacionais. A tripulação sentada no convés conversava, e Laura falava a respeito do baixo salário dos professores mundo afora, especialmente no Brasil, lembrando a situação de Herrera, escritor e professor universitário que se encontrava numa situação difícil, que nem o governo do seu país o auxiliou, se não fôssemos nós ele poderia estar numa situação bem pior, em mãos de bandidos internacionais ou numa masmorra em seu próprio país de origem. Herrera morrera a bordo do Caranguejo, por morte natural, afinal, era homem de idade avançada e muito sofrido, vivendo em tensão emocional, dado suas atitudes de liberdade. Pelo menos morreu entre amigos e próximo à filha Josefina. Seu corpo era velado a bordo do Caranguejo em águas internacionais nessa viagem.
 
 ─Isso é noite de velório, vou beber rum para me alegrar, dizia Garcia. Ele não tinha afinidade nenhuma com mortos e rezava para logo chegar ao destino, vendo-se livre do passageiro insólito, cujo corpo estava na parte baixa do veleiro, enquanto aguardava a decisão do comandante, se o jogaria ao mar como reza a Lei, ou o conduziria para Cartagena, destino do Caranguejo. Ouviram-se pancadas abaixo do convés. A conversa parou e o grupo se entreolhou. ─ Deve ser as ondas no casco do barco, disse Massumi. ─ Não, as batidas são internas, não estou gostando disso, respondeu Garcia. Novamente ouviram pancadas como se alguma coisa caísse escada abaixo. ─ E agora? Estou com medo, não sinto vergonha de confessar, disse Garcia. ─ Você está é com sono. Vá dormir. ─ Com certeza não conseguiria ─ Vamos jogar cartas, disse Laura. ─ Não posso, estou tremendo de frio! ─ É frio ou medo? ─ É frio e medo. ─ Parece que ouvi um grito, disse Laura. ─ Deve ser o medo do Garcia, disse Massumi. ─ Não brinque, a coisa é séria. ─ Estou ouvindo um barulho! ─ É verdade. ─ Parecem passos de uma pessoa. ─ Ora vocês estão com medo! Não sei de quê. Garcia se adiantou dizendo: ─ Estou ouvindo passos sim, e acho que é na escada. Enquanto isso, os tripulantes jogavam pôquer ou nervosamente procuravam conversar, mas preferiram permanecer em silêncio, até que de repente ouviram alguém falar. ─Tem alguém aí? Tem alguém aí? Era uma voz embargada e rouca. Lá fora zunia o vento tal nota musical emitida por violino, o som crescia com profusão parecendo o cantar da sereia que os marujos afirmam ouvir nas noites claras e estreladas. ─ Sim, respondeu Garcia. ─Quem pode mais do que Deus? Perguntou Garcia. ─ Ninguém. Quem fala sou eu! Respondeu a voz. ─ Eu quem? ─ Herrera. ─ E onde você está? ─ Aqui.
 
O medroso Garcia se alvoroçou e com os olhos esbugalhados gritando: ─ Meu Deus! Uma visagem−  E novamente perguntou: ─ Quem pode mais do que Deus? Ele mesmo respondeu, dizendo: Ninguém. ─ Aqui não ficarei isso é coisa do demônio! Disse Garcia se jogando ao mar, sem colete salva-vidas. Gonzalez desligou o veleiro e gritou: ─ Homem ao mar. Josefina ao olhar em direção à voz, num grito, exclamou: ─ Meu pai! Aturdida a tripulação se olhou. Estava feita a confusão.  Com passos lentos Herrera caminhava em direção ao convés; cabelos despenteados, rosto extremamente pálido, mãos trêmulas, e voz embargada, sem calça e cueca. Vestia apenas uma camisa que não chegava a cobrir as nádegas e adjacências, tentava falar alguma coisa, balbuciando palavras desconexas. Entre prantos Josefina se abraçou ao pai. Haviam se esquecido de vestir o defunto. Tânia desmaiou e foi socorrida por Laura que também estava num estado deplorável. Garcia foi trazido a bordo por Massumi, que tentava disfarçar a surpresa. Gonzalez pediu calma e Vitor, muito sem graça, dirigindo-se a todos disse: ─ Para tudo existe uma explicação; presumo que o professor tenha sido vítima de um fenômeno de nome Catalepsia, "rigidez muscular, sono hipnótico" Essa doença impede que a pessoa possa se movimentar, mas os sentidos e as funções vitais, embora desaceleradas e, o corpo rígido, continuam funcionando. Esse ataque cataléptico pode durar dias e a pessoa acometida por essa doença pode ver e ouvir tudo o que acontece em sua volta, mas não pode se comunicar. Os espíritas dizem que nessas circunstâncias o espírito se desloca da matéria e visita lugares em outros mundos e, quando volta tem uma vaga lembrança de tudo que vivenciou.

Nós fomos irresponsáveis por não termos feito um exame detalhado no escritor quando apareceu supostamente morto. Agora podemos festejar o feliz retorno do nosso passageiro, pedindo encarecidamente que Josefina vista uma roupa em seu pai. Nem haviam percebido que o ex-defunto estava completamente despido. Depois de beber água e um copo de rum, Herrera pediu desculpas pelo constrangimento de ter passado algumas horas como morto fazendo os amigos sofrerem, especialmente sua filha Josefina. Garcia, também se desculpou por ter se jogado ao mar, explicando que não tinha muita afinidade com defunto, no entanto convidou o professor para beber mais um copo de rum.
 
 Após algumas horas, o ex-defunto estava refeito, e Vitor pediu-lhe que falasse alguma coisa sobre a experiência de morrer, ver e ouvir tudo em volta. Então, o escritor falou sobre a experiência e, timidamente confessou: ─ Eu não me sentia morto, vendo, ouvindo e sentindo tudo ao redor. Agora posso avaliar quanto os fiz sofrer e como sou amado. Observei os momentos de angústia de Josefina e de todos vocês, foi uma experiência muito sofrida. O medroso senhor Garcia ainda não tinha absoluta certeza que o escritor havia voltado a viver e vez por outra tocava no ex-defunto dizendo: ─ Fale comigo para eu ter certeza que você é um ser vivo, não me engane O ex-defunto rindo lhe dizia: ─ Pode acreditar, sou eu mesmo e estou vivo. ─ Herrera, em algum momento você pensou estar morto? Perguntou Vitor. ─ Sim, cheguei a ter dúvida, foi quando me senti muito leve e flutuando no espaço, sem querer voltar para o corpo. Era como se eu estivesse sido libertado de uma prisão. Foi um momento em que esqueci a dor e o sofrimento, sentindo uma imensa alegria. Viajei por cima do mar, fui à Havana, ao prédio aonde eu trabalhava e visitei minha antiga mesa de trabalho. Procurando conversar com alguns amigos de trabalho, no entanto não me deram a mínima atenção. Vi um homem examinando documentos e comentando com meu antigo chefe que não conseguia decifrar os códigos deixados por mim e que era imprescindível encontrar-me com vida. Aí eu pensei: eles sabem que estou sendo caçado, mas me querem vivo tão somente porque não conseguem decifrar os códigos. ─ E depois? Perguntou Laura.

Depois visitei lugares onde a matéria era diferente da nossa, parecia um silicone cristalino, translúcido. As pessoas tinham um semblante tranquilo, algumas pisavam levemente no solo, outros flutuavam. Os lugares possuíam uma intensa Claridade e os prédios pareciam ser de cristal ou de uma matéria com ínfima densidade. Num lugar mais distante ouvi música sacra e coral, visualizei milhares de anjos, arcanjos e querubins, senti perfume de flores naturais e vi pessoas felizes. Entre tantas, encontrei grandes compositores da música clássica universal e também outros ilustres; Vinicius de Moraes, Antonio Carlos Jobim, Frank Sinatra, Pixinguinha e outros que só me lembro como um sonho.  Percebi, então, que não estava acima ou abaixo da Terra, mas noutra dimensão ocupando o mesmo espaço, contrariando a ciência do homem. Belíssimos animais, embora desconhecidos, caminhavam pelos campos; imensos pássaros sobrevoavam as cidades e os campos floridos; água estava presente em todos os espaços, mas existiam lugares que não consegui entrar, parecendo limitados a mim. As pessoas tinham semblantes alegres e caminhavam com naturalidade, vi e reconheci amigos que haviam morrido, especialmente alguns que ao meu lado lutaram durante a revolução cubana. Eles se apresentavam com um corpo apenas parecido com o nosso, pois eu percebia neles uma matéria menos densa que a nossa, mas as características corporais eram as mesmas de quando os conheci aqui na Terra. Em volta das pessoas circulava uma luz de múltiplas cores.
 
Lá nas alturas não senti fome, frio ou calor, embora visse as pessoas bebendo água e ingerindo frutas. Também descobri que as coisas ensinadas por mim na universidade são elementares diante de tudo que pude ver e sentir. Creio que aqui nesse planeta, estamos apenas começando, e nada conhecemos. ─ Quanto tempo você ficou nesse lugar? ─ Não sei, pois lá não existia noção de tempo, o tempo era diferente, acredito que lá, é o próprio tempo e em nenhum momento cheguei a sentir saudade da Terra, mas lembrei-me da família e dos amigos. Por um anjo de luz fui informado que muito além daquele lugar existem outros mais bonitos, onde são recebidas pessoas que viveram na Terra e não se envolveram com coisas ruins, tipo política partidária brasileira, aposentadoria pelo INSS e outras coisas também imorais ─ Compreende? ─ Naturalmente que sim. ─ Seu depoimento é muito importante para nós porque não é todo dia que uma alma vai ao outro mundo e retorna contando a história.  

 
Antonio de Albuquerque
Enviado por Antonio de Albuquerque em 07/09/2018
Alterado em 15/09/2018
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Imagem de cabeçalho: Sergiu Bacioiu/flickr