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Antonio de Albuquerque

Lençol Aquífero

Desde que Justino trouxe a notícia, ninguém mais sossegou na vila do barreiro. Uma comunidade formada por dezesseis humildes pessoas que teimosamente afirmavam exercer a agricultura, num lugar onde a água brotava por um milagre da natureza, formando um barreiro onde todos colhiam um tiquinho d’água para sobreviver, juntamente com alguns animais. Os moradores do lugar não entendiam o aparecimento da fonte d’água no barreiro, visto que ao abrir um furo no mesmo, nada encontravam de água e assim, recebiam como milagre o fenômeno.

Justino ouviu no seu radio a pilha, a notícia que o exército cavaria poços em alguns lugares do sertão e entre tantos, a Vila do Barreiro fora contemplada com um poço, considerando que naquele lugar não chovia há pelo menos seis anos, mas, mesmo assim, o povo teimava viver ali num completo abandono, porém, esperançoso de ver a vida melhorar e um dia poder contemplar a chuva molhando as roseiras e se espargindo sobre a terra seca formando um  jardim de grande beleza em pleno sertão. O pensamento de todos era tão forte que um dia se materiazaria.

A lua prateava as folhas das aroeiras úmidas pelo orvalho da noite e a natureza mostrava o céu atapetado de astros e estrelas. Sentados no chão empoeirado do terreiro da Tapera, Justino e sua família comentavam sobre o grande acontecimento e faziam planos falando entre si: se os homens do poço chegarem amanhã, certamente em poucos dias teremos água e nossa vida mudará para melhor, comentava Edna a filha de Justino, menina de quatorze anos que tinha o olhar brilhante e sereno, expressando em palavras seus mais puros e nobres sentimentos relacionados a chegada da água. Então dizia a bela menina: Nunca mais beberemos água do barreiro, nem serviremos para nossos animais, teremos plantações de grãos: milho, feijão, arroz e minha mãe terá uma horta. Fartamente alimentaremos nossas duas vaquinhas e teremos leite para as crianças. Por fim haverá fartura em nossa casa e seremos felizes, tudo de bom virá pela água, fonte da vida, vinda das entranhas da terra.

Era manhã risonha, o sol despontava no horizonte tingindo de ouro a caatinga e alegrando a passarinhada que cantando, voavam em bandos buscando água e alimento. Os animais se acercavam do curral, o galo cantava e as galinhas com seu cocorocó anunciavam que haviam colocado ovos. No fogão a lenha a dona da casa passava o café economizando pó para render mais e Justino ordenhava a vaca. Distante ouvia-se o triste cantar da acauã, cantando a cigarra anunciava mais um dia sem chuva e os calangos saiam dos seus esconderijos em busca de insetos. O vento quente do lugar tangia para longe folhas trituradas pelo pisar dos animais. No alto as nuvens alvas formavam figuras lendárias. Repentinamente um barulho ensurdecedor ouviu-se na estrada e Justino exclamando anunciou: são os homens que vêm furar o poço. Todos acudiram num furor de alegria. A cada centímetro que a sonda penetrava na terra seca o coração de cada morador se alegrava mergulhando em sonhos alvissareiros da formação de um jardim de flores e plantações com perspectivas de grande fartura e progresso.

Assim se passaram três dias, quando finalmente a água jorrou em profusão. Trabalhadores do poço, moradores da comunidade, pessoas vindas de outros lugares, alegres pareciam uma só pessoa e abraçados, cantavam, choravam de alegria e louvavam a Deus pela água obtida e quando os pingos d’água se espargiam sobre seus corpos eram quais fragmentos de vida, de esperança e confiança no Criador. Edna, a bela menina com um sorriso encantador, tinha os olhos nevoados de sonhos, abraçada à sua mãe exclamava com alegria e gratidão: Graças a Deus temos água a fonte da vida.



Interações

Joselita Alves lins

"Cada gota dessa água,//Jorrando por esse chão//É como carinho que afaga// toda gente desse sertão.

 
Antonio de Albuquerque
Enviado por Antonio de Albuquerque em 22/03/2019
Alterado em 25/03/2019
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