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Antonio de Albuquerque
Ilha da Traição


Vitor e sua tripulação velejavam no Mar do Caribe a bordo do  Veleiro Caranguejo, procurando resgatar Laura, uma tripulante sequestrada no dia anterior, pelo maldito pirata Chevalier, o terror do Mar das caraíbas. Após intensa busca sem sucesso, avistou uma paradisíaca ilha. Estranhou por haver passado diversas vezes por aquela coordenada sem localizar nenhuma Ilha e deduziu que precisava se alertar, pois esta ilha aqui não existia, visto que os instrumentos não haviam detectado, mesmo sendo de última geração. Algo não se encaixava, mas desembarcou conduzindo um rádio para numa eventual necessidade, falar com a guarda costeira. Vitor não gostava das coisas estranhas que aconteciam, mas mesmo assim, desembarcou num jet-ski. O capitão González permaneceu mantendo o barco em movimento para eventual desembarque.

Ao desembarcar, Vitor avistou a cem metros, Laura despida e presa a uma árvore, gritando por socorro. Ao seu lado Chevalier sorria com ares de vitória e perversidade. Vitor foi ao seu encontro e Chevalier se apressou, dizendo: Aqui e nessas circunstâncias podemos conversar; eu digo o que quero e você tem o direito de obedecer. Essa cadela é o pivô desse pesadelo que permanece por centenas de anos, pois aqui estivemos há séculos. Nesse lugar essa pirata escondeu um grande tesouro que me pertence, no entanto se nega a indicar o lugar onde enterrou o maior tesouro de todos os tempos, afirmou o pirata. Laura em soluços dizia que não podia lembrar-se de coisas que aconteceram há tanto tempo, e, se aconteceram, estava noutro corpo, como poderia lembrar-se? Chevalier, pode, por estar sem corpo material, entretanto, mente cinicamente, disse.

As lembranças não são guardadas no corpo, mas sim, na alma, procure lembrar-se, pois minha paciência está esgotando. Você se lembra, sim, pois foi você mesma que enterrou o tesouro a mando do corsário do rei Guilherme, esse mesmo Vitor aqui presente em sua companhia, querendo roubar meu tesouro. Quando eu começar a cortar sua gargantazinha você vai recordar de tudo. Calma Chevalier, se você a matar aí é que ela não falará, adiantou Vitor. Vitor precisava acalmá-lo para evitar uma tragédia e tomando a palavra disse que queria melhor entender, mas Vitor queria mesmo era ganhar tempo, visto que Chevalier mantinha sua adaga junto ao pescoço de Laura. Mas, ele não a mataria, pelo menos naquele momento, visto que morta ela nada revelaria, isto é! Se soubesse. Você é uma alma sábia, não fará nenhuma tolice, dialogando nos entenderemos, disse Vitor.

Vitor explicou que não era mais corsário, mas Chevalier insistiu; É, sim, e, o mais perverso que conheci em todos esses séculos dessa minha prolongada existência.  Digamos que eu seja, mas afaste a adaga do pescoço de Laura e o que ela souber, e se souber, vai falar porque nós não viemos aqui em busca de tesouros. Já estamos no século XXI e nossa forma de ganhar dinheiro é outra, e honesta. Conte-nos essa história em detalhes, eu preciso entender e encontrarei um jeito de auxiliá-lo. É só confiar em mim.  Sim, eu concordo, mas não tente me enganar. Chevalier narrou uma longa história envolvendo os atuais tripulantes do Caranguejo, noutra era.

Estávamos vivendo a expansão da monarquia inglesa, crescendo com a colonização da América e a pirataria em todos os Mares. Formávamos uma perversa tripulação pirata, sendo Vitor o elemento central dessa história criminosa e nós éramos seus marinheiros, servindo a Inglaterra. Vitor era temido por todos no Caribe, justo com sua tripulação, mas implacável com os inimigos, não os deixando vivos para contar a história.

A Inglaterra e a pilhagem estavam acima dos seus sentimentos, sendo respeitado pela coroa inglesa, considerado um almirante de sua esquadra. Éramos imbatíveis e Vitor o homem mais valente dos mares, embora fosse um marinheiro inteligente, só agia de acordo com Laura, sendo esta, inimiga dos marinheiros chegando a colocar alguns ao mar. Os saques eram divididos conforme o estabelecido, isto é, setenta partes para a coroa, vinte para o corsário e dez para a tripulação. Vitor retinha em seu poder maior quinhão, que não era muito, comparado com a parte da coroa, no entanto nada podíamos mudar. Todos nós tínhamos contas a  acertar com a Lei. Se não aceitássemos, por certo seriamos decapitados ou enforcados, de um jeito ou de outro tanto fazia.

No final da dinastia dos Tudor, nós fizemos a maior pilhagem em ouro, prata e pedras preciosas de toda a história de corsários caribenhos, numa vitória espetacular sobre a armada espanhola. Em seguida nos reunimos nesta ilha e decidimos não voltar para a Inglaterra. Apoderamo-nos do tesouro do rei, aqui faríamos a partilha e ficaríamos poderosos. Vitor planejava traí-los e com o ouro fundar no Caribe um império inexpugnável. Assim, contaríamos aos ingleses que havíamos sido surpreendidos pelos espanhóis que retomaram o tesouro, matando quase toda a nossa tripulação que é esta mesma aqui presente.

Vitor seguiu clandestinamente num navio chinês para a Inglaterra, Laura e Raquel permaneceram aqui, enterraram o tesouro e voltaram para Porto Royal, mas antes de chegarem ao destino, jogaram a tripulação ao mar, incendiaram o barco e chegaram ao continente como náufragas, tornando a história verossímil e livre de testemunhas. Na Inglaterra o rei não aceitou a versão da derrota e fomos decapitados. Vitor não teve o mesmo destino por pertencer a uma família religiosa, permanecendo na prisão perpetua. Anos depois, em gloriosa luta, foi libertado pelo seu filho, o valente jovem Stuart e voltou ao mar, protegido por um almirante da marinha inglesa, amigo de Stuart e ministro da suprema corte daquele reinado ... igualzinha a que vocês têm hoje em Brasília.

Vejam como os acontecimentos vêm se encaixando.  Libertado, Vitor voltou a Porto Royal para encontrar-se com Laura, ela havia morrido. Então, ele desistiu de tudo, achando que o tesouro era maldito e voltou a ser corsário a serviço de França. Vitor foi o corsário mais temido do século, morando em Tortuga, sempre lhe acompanhei e a todo esse grupo que vive em torno dele, pois nunca se separaram; quando recebem um corpo para a dimensão material, juntam-se em família buscando poder e riqueza. Eu me mantive sempre próximo para não os perder de vista, e não me distanciar do meu tesouro. Vitor pediu o desembarque dos tripulantes, fez uma longa exposição sobre a conversa com Chevalier a respeito do tesouro e pediu ao Garcia que falasse sobre tesouros do mar do Caribe, para melhor entendimento.

Eu sei como o tesouro foi parar na coroa espanhola. É uma história de traição e morte, disse Garcia. ─ Sim, falarei tudo que conheço sobre essa tragédia, garantiu Garcia. As duas mulheres piratas eram Laura e Rachel. Laura sozinha enterrou o tesouro sem a presença de Raquel e juntas retornaram ao continente. Mas, antes jogaram os marinheiros ao mar, queimaram a embarcação chegando a Porto Royal num barco a remo. Aconteceu que um marujo denominado Carter Johnson que havia sido jogado ao mar, foi resgatado por um navio espanhol e vingou-se contando toda a verdadeira história aos espanhóis. Os envolvidos nessa trama imaginavam que o tesouro continuava na ilha. Quem matou Laura foi um espião da Espanha e o duelo foi apenas um disfarce e uma vingança, porque jamais o rei espanhol conseguiu capturar Vitor, o responsável pela derrota da sua esquadra. Laura era um brilhante espadachim, mesmo sendo atingida mortalmente durante o duelo, também matou o seu rival. Raquel foi apenas uma ponte para o homem chegar a Laura que fora mulher de Vitor.

O corsário do rei Guilherme, que na realidade chamava-se David Stuart a serviço do rei de França, ao tomar conhecimento do assassinato de Laura, e, sendo o assassino um oficial espanhol, resolveu perseguir os navios espanhóis que circulavam pelo Caribe. Matou os marinheiros espanhóis que encontrou, incendiou os navios, recuperando, assim,  o valor correspondente ao tesouro anteriormente retomado pelos espanhóis. Chevalier entendeu que o tesouro fora desenterrado, hoje, fazendo parte da história. Consciente que o tesouro não mais existia, refletia sobre as palavras que ouvira e se afastou. A paz voltou a reinar entre a tripulação do Caranguejo. Velejando no mar das caraíbas, Vitor comentava: Deus faz tudo certo, o homem é quem complica as coisas.


 
Antonio de Albuquerque
Enviado por Antonio de Albuquerque em 03/06/2019
Alterado em 06/06/2019
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