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Resgate II - Continuação -
 

Pedro precisava socorrer os aflitos jovens que o esperavam. Algo fazia acreditar estarem em dificuldade e, acompanhado por Antônia seguiu pela floresta. Os guerrilheiros ao saberem da posição dos retirantes, certamente atacariam com força total. Bem armados e treinados, em poucos minutos dominariam o grupo. Pedro tinha pressa, os guerrilheiros estavam em vantagem, mas ele e Antônia conheciam a floresta e tomaram uma trilha mais curta. Pedro avistou um estranho homem empunhando uma espingarda apontada para sua cabeça, ele tentou reagir, o homem afastou o cano da arma e sorriu. Pedro ficou sem jeito e o estranho se apresentou dizendo chamar-se Velho Ar, um morador da floresta, que conhecia o movimento guerrilheiro e havia visto alguns que por ali passaram.

Após alguns minutos chegaram a um Tapiri construído de toras de madeira, amarelas e brancas, erguidas a dois metros do chão, coberto com palhas da floresta. A cabana tinha quatro cômodos; varanda, sala, quarto e cozinha decorada com pratinhos de cabaça, dependurados nas paredes, e numa cuité, guardados os talheres feitos de maçaranduba. Ar estendeu na varanda, redes de fibra para eles repousarem. Pedro adormeceu enquanto Antônia zelava pela segurança, depois arranjaria tempo para repousar. Ela jamais fora surpreendida em suas missões, mas o Velho Ar havia quebrado o tabu por ser ele um homem diferente de todos os que ela conhecera. O anfitrião colocou à mesa um delicioso almoço; peixe assado na folha da palmeira, pirão de farinha de macaxeira, ovos de perdizes, mel silvestre, leite de castanha, vinho de cupuaçu e açaí. Tudo servido em pratinhos de cabaça. Após a deliciosa ágape, Pedro repousou ouvindo a passarinhada e despertou escutando o anfitrião, contando histórias da floresta, dos índios, dos espíritos encantados, das cachoeiras, plantas milagrosas, chás que conduzem o espírito a outras dimensões e civilizações antigas que ali habitaram.

Numa manhã banhada de sol, despediram-se do Velho Ar, abraçando-o com ternura. Tinham os olhos molhados e o coração cheio de gratidão. O Velho Ar os advertiu para serem fortes ao se depararem com coisas tristes. O casal penetrou na floresta caminhando por uma trilha imaginária, guiados pela boa experiência. Arbustos enfeitavam a trilha, folhas molhadas pelo orvalho escondiam pequenos insetos arduamente trabalhando na metamorfose do grande laboratório da floresta. Lagartos e roedores eram vistos na beira de igarapés translúcidos cercados por belas palmeiras, sororocas e capim-do-brejo, onde coloridos peixinhos nadavam se acarinhando. Na copa das suntuosas árvores os passarinhos em algazarra se preparavam para voar em busca de encher o papo. No lindo céu anil; araras, papagaios, gaviões e andorinhas voavam pintando de ouro e prata o cenário da esplendorosa floresta.

Ao chegarem ao acampamento encontraram um cenário repugnante, difícil de olhar. — Maldita guerra! O que fizeram com eles! Nem sepultaram os corpos! Com o coração embrulhado em dores, Pedro se deparou com corpos estendidos na floresta, Vladimir e Aída estavam entre eles. No alto o sol brilhava tal uma manopla de fogo rolando pelo céu, derramando sobre a terra raios vermelhos, parecendo repreender a nefasta guerra suja. Pedro sepultou os mortos e com Antônia, seguiu floresta adentro. Seu pensamento era salvar os jovens que ainda estivessem em mãos do inimigo. Antônia, cminhava na retaguarda, se fossem seguidos não seriam surpreendidos. Antônia sentiu-se observada, parou, prendeu a respiração e nada escutou, mas sentiu cheiro de tabaco, entoou o cantar de um pássaro, sinal que Pedro entendeu. Tal um felino Antônia escondeu-se entre sororocas altas e após dois minutos, um homem portando um rifle passou caminhando devagar. Antônia não tinha dúvida; pelas armas, jeito de andar, roupa e chapéu, era um pistoleiro. O homem havia visto as sepulturas e os seguiu. O pistoleiro recuou e Pedro voltou permanecendo na ofensiva, o homem estava de tocaia quando Antônia o surpreendeu. Nem chegou a usar arma. Pedro interveio dizendo: — Não precisava matá-lo! — Era ele ou eu. — Devia tê-lo feito prisioneiro. — Para colocá-lo aonde? Não temos cadeia, esqueceu? — Desculpe, nem pensei nesse detalhe. — Compreendo, são efeitos dessa guerra, esse é o trabalho sujo que nunca desejamos fazer, mas a circunstância nos impõe.

Antônia sabia da existência de um acampamento nessa área, e para fazer melhor reconhecimento, Pedro subiu numa castanheira, visualizando um acampamento. Desceu recuando para a mata fechada se camuflando entre palmeiras esperando a noite chegar. A noite surgiu, era o que precisavam para a ação coordenada. Foi então, que Pedro sentiu o cano de uma arma em sua cabeça. Vire-se lentamente, disse. Pedro percebeu ser o Velho Ar sorrindo, Antônia estava a cem metros e só notou a presença do Ar ao escutar sua voz. Mais uma vez Pedro e Antônia foram surpreendidos. Os dois se abraçaram ao Velho Ar e Pedro exclamou: — Velho maluco quer me matar do coração! Sorrindo, Ar informou que seus amigos estavam no barracão da direita, junto a uma exuberante Samaúma. — Eu descobri um jeito de tirá-los, se ainda estiverem vivos. — Disse o Velho Ar. — Como? — Tenho um plano, disse. Em seguida os convidou para irem ao encontro de alguns amigos. Em minutos chegaram à beira de um lago e Ar entoou sons. Esconderam-se junto a umas sororocas-pipoca permanecendo em silêncio até ouvirem um assobio estranho. — Eles estão chegando! — Disse Ar. Em minutos surgiram índios e finalmente uma imponente índia de grande beleza e porte imperial.

A guerreira caminhava à frente com trajes de guerra, os outros a seguiam até chegarem junto ao acampamento. A índia aconselhou os companheiros ficarem dentro das sacupembas e gesticulando se dirigiu em Nheengatu, dialeto que os guerrilheiros não entendiam, mas mantinham-se inebriados pelos gestos e fala da guerreira. Na confusão causada, dois índios entraram pelo teto, resgataram os presos e com o auxílio de outros nativos vieram para fora do prédio. Todo o resgate foi realizado com extrema habilidade, e mantiveram-se ágeis e silenciosos qual a Jaguatirica. Alguns jovens haviam sido brutalmente torturados. — E os outros? — Perguntou Pedro. — Mortos. Respondeu Luiza — Vamos sair daqui. — Disse a bela índia. Os guerrilheiros haviam sido hipnotizados pela bela índia e jamais se lembrariam do acontecido. Pedro dirigindo-se ao Velho Ar, perguntou: — Como tudo isso aconteceu? — São segredos dos habitantes da floresta. — Não gosto de coisas muito fáceis! — Disse Pedro. — Nem tudo você precisa saber. Conhecerá no tempo certo! O nome da guerreira era Yasi e sua língua era Nheengatu, idioma falado pelos nativos da região que Ar entendia, mas não se esforçava para traduzir. Todos foram conduzidos pelos índios até um local. Caminharam por meia hora, quando se juntaram a outro grupo embarcando em canoas. Luíza e os outros estavam sendo cuidados por Yasi, que massageava seus corpos com óleo medicinal de vegetais da floresta. Chegaram à Nação dos índios hospedando-se todo o grupo numa cabana, outros cinco jovens salvos estavam bem. À noite houve uma festa em que os índios contaram histórias, falando das suas ricas origens, cultura, costumes e tradições. Cantaram, dançaram e serviram farta alimentação

Um índio guerreiro deu-lhes as boas-vindas e Pedro em nome de todos agradeceu, salientando que nunca esqueceria aquele gesto solidário, e ressaltou a beleza, a habilidade e a coragem da guerreira Yasi e de seus comandados. Falando em nheengatu, a guerreira Yasi disse que as palavras pronunciadas por Pedro poderiam ser direcionadas ao velho Ar, dizendo ser ele, o rei do vento, da chuva, das matas e de tudo que habita a floresta; sou eu apenas, uma encantada guerreira da floresta. Após a explanação da guerreira, surgiu no ambiente uma suave brisa tingida de luz e o cantar harmonioso e belo do Uirapuru. Yasi se expandiu na luz do luar, tal qual fazem as estrelas, viajando pelo infinito Universo. Assim, os guerreiros testemunharam a manifestação da natureza revelando mistérios. Embasbacados permaneceram em profunda meditação, enquanto a brisa da noite sussurrava entre as folhas da Samaúma, prateadas pela luz da lua cheia. Após trinta dias Pedro, Antônia e Luiza entregaram os jovens aos pais e seguiram para uma missão quase impossível no Caribe.
Antonio de Albuquerque
Enviado por Antonio de Albuquerque em 15/08/2019
Alterado em 15/08/2019
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