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Antonio de Albuquerque
04/12/19
Lago dos Colibris

Comecei a pensar na viagem e a ideia veio tomando forma. Era novembro e as chuvas ainda estavam amenas na região do Rio Negro. Assim, viajei de Hidroavião até próximo a cidade de Santa Izabel. Havia marcado minha presença com Gonçalo, mas sua filha Iris veio em seu lugar, informando que o pai havia entregue a responsabilidade para ela. Fiquei observando o lugar, à beira de um lago, próximo a uma imensa montanha seu cume, coberto de alvas nuvens no centro da floresta, distante cem quilômetros do Rio Negro, minha referência para voltar à Manaus — Meu pai mandou-me cuidar de você, fique tranquilo, eu conheço a região e em dois dias estaremos na Aldeia Tucumã, disse a moça.

Confesso que se o Teodoro não tivesse levantado voo eu voltaria para Manaus e tudo se resumiria apenas num passeio sobrevoando a floresta. Creio que ele sabia que eu desistiria, portanto sumiu com o avião. — A canoa de rabeta está abastecida, mas também podemos pescar alguns Tucunarés e assamos na brasa para nosso almoço, disse Iris. Eu concordei e ela mergulhou no lago voltando com três Tucunarés de três quilos cada. Almoçamos, uma delícia de peixe, e iniciamos a viagem. Eu, Iris e dois índios comandados por ela.

A canoa, apesar de lenta era confortável com piso atapetado com fibras e coberta de palha protegendo do calor e chuva e eu fiquei sentado de frente para Iris, foi quando percebi que ela não era mais a menina que eu havia conhecido na viagem anterior, agora, uma belíssima mulher, com um corpo que todo escultor sonha um dia criar e uma delicadeza que inspira o poeta a imaginar uma belíssima deusa da mitologia grega. Tudo nela era suave e belo, parecendo uma criação de Leonard da Vinci. Assim viajei seis horas, admirando a boniteza de Iris, navegando em Igapós, Igarapés, Rios, Corredeiras, lagos e passarada sobrevoando a canoa. O Sol dourava a mata enfeitada de Ipês, brancos e amarelos. A melodia dos pássaros criava um ambiente sobrenatural de encantamento.

Chegamos a um lugar denominado lago dos colibris. Ancoramos a canoa na margem e silenciosamente a noite chegou. Foi quando no céu as estrelas vieram a brilhar e a Lua cheia, vestiu de prata a água, Ipês e colibris. Cajaranas prateavam as ribanceiras do lago formando um belo vergel, eu encantado me vestia de criança nos braços da noite e um suave perfume invadiu nosso espaço. A linda Iris em Língua Geral cantava uma bela canção de ninar e juntou a mim seus seios e corpo sedoso e macio, sussurrando aos meus ouvidos; meu pai pediu-me para cuidar de você. Adormecemos e a noite cobriu-nos de silêncio imantados pela Luz da Lua, contemplando um céu atapetado de astros e luzes testemunhando um momento de sublime ternura e harmonia no seio da floresta, num lago de água cristalina consagrando nossa alegria.

Numa sorridente manhã deixamos o lago e a canoa e seguimos viagem para a Aldeia tucumã. No caminho encontramos grande riqueza de belezas naturais, Pássaros desconhecidos, mas de beleza inacreditável, árvores centenárias, fontes d’água, fontes de sal onde antas bebiam água salobra, sauins nos galhos das arvores nos provocando para brincar e uma infinidade de animais dóceis. As onze horas chegamos a aldeia e fui surpreendido por uma festa em homenagem a mim por ser grande amigo da comunidade. A noite na cabana de Gonçalo me reuni com toda a sua família, depois fomos para um grande salão, onde foi servido para toda a população sendo apenas de quarenta e nove índios, farto jantar com peixes, caças, frutas e vinhos naturais da floresta.

Depois, abraçados, cantando, dançamos até o dia raiar e seguimos todos juntos para o lago dos colibris para a grande despedida. Nessa despedida pedi para que se alegrassem cada vez mais e pensassem na vida, na Lua nas estrelas, no Sol e nos Astros que estão mais próximos do Criador de tudo que nos rodeia. Iris se aproximou de mim, estendeu-me a mão e pediu-me para olhar o Sol, eu o fiz sentindo um clarão de Luz sobre nós e o lago, ficamos de pé e de mãos dadas fizemos uma oração pedindo a Deus que nos cobrisse com o seu Divino Manto, nos trazendo a saúde e a prosperidade. Abracei e beijei a todos e num longo abraço prometi a Iris voltar em breve para receber no lago a Luz do Sol, nosso pai verdadeiro.

No espaço surgiu uma aeronave, era Teodoro com seu avião que  eu chamo de monte de ferro velho. Teodoro, velho amigo, sorrindo cumprimentava a todos parecendo até o dono da festa. — Voa baixo, quero ver a paisagem — Não faça exigências! — Você está com cara de apaixonado pela Iris, disse Teodoro — Deixa a moça em paz, ela não é desse mundo cão que vives. — Você é que é muito feio para ela, respondeu Teodoro. — Já estamos sobrevoando o encontro das águas. Olha só os botos!!! Cuidado com esse ferro velho ao tocar no solo. Taxiamos na pista do aeroclube, estávamos de volta. Até a próxima excursão.
Antonio de Albuquerque
Enviado por Antonio de Albuquerque em 07/12/2019
Alterado em 07/12/2019
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