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Labareda

Nos confins do agreste, num lugar envolvente, adornado pelo sonoro cantar da Acauã, onde os olhos alcançavam o verde do mandacaru e dos papagaios voando no alto, numa choça, morava Labareda, que das boas virtudes era feitor. A casinha era singela parecendo morada de João-de-Barro. A vida de Labareda havia se complicado em razão do seu patrão, Caetano, não haver pago seu trabalho, da Conceição e Tição, na colheita da Carnaúba, afirmando que não havia mercado para escoar o produto. A situação era precária, visto que acabara a farinha, restando uma rapadura e um tiquinho de feijão, a garrafa de cachaça estava vazia. — Não se avexem, darei um jeito nessa situação, firmou Labareda e com Tição saiu à caça de roedores.

Nesses lugares, o caçador também pode encontrar raízes de xique-xique que cozido tem alguma nutrição, inibindo a fome e o sofrimento — Ainda tenho três cartuchos na minha Lazarina, darei três tiros e três preás cairão ao chão, e quem sabe! Acertarei um bicho maior, disse Tição. — Por precisão subiremos a serra das onças, disse Labareda a Tição. Labareda falou mirando a sua companheira, que mesmo macérrima tinha nos olhos verdes a esperança e um doce olhar, trazendo à sombra a claridade no seu fúlgido sentimento. A serra era um lugar, onde só existia caça na fecunda imaginação de Labareda e Tição. Querendo enganar a fome, os três sonhadores imaginavam fartura em profusão, mas só encontravam precisão. Assim, eles viviam felizes e alegres plantando sonhos acreditando serem capazes de vencer os desafios que a vida lhes impunha.

Subiram a montanha procurando caça, ouviam pequenos insetos mexerem nas folhas e galhos secos na beira do caminho. O vento manso sussurrava quais segredos revelados e o céu mostrava seu esplendor. Os três sonhadores estavam num platô e o cenário era de grande beleza, com o céu atapetado de Astros, estava claro qual dia ensolarado. Diante de tanta beleza, eles se embasbacaram com a esplendorosa Natureza, sentindo um clarão de luz dentro de si, e Tição exclamou: — Não existe beleza maior do que contemplar a lua beijando a montanha e nós, sentindo seu resplendor. Deu meia noite, a madrugada chegou e o dia amanheceu numa manhã sorridente. O sol dourava a malva branquinha na encosta da montanha. No alto nuvens brancas desenhavam carneirinhos e passarinhos voavam em bandos enfeitando o sertão.

Famintos! Labareda teve uma brilhante ideia: Inventaremos uma violenta luta com uma onça, que fugiu ao segura-la pelo rabo, não conseguindo contê-la por estar fraco e com fome e das minhas mãos ela escapou. — Assim, sensibilizaremos Caetano a nos vender fiado alguma coisa para saciar nossa precisão. Proporemos voltar a montanha, abater a feroz onça e com o dinheiro da venda do couro, sanar a dívida, disse Labareda. – É! Mas, a onça não existe, e se não sanarmos a dívida, seremos no mínimo, açoitados. — É perigoso, mas não vejo outra saída, concordou Tição. Levaram a brilhante ideia ao patrão, que concordou em vender o alimento desde que no dia seguinte trouxessem o couro da onça, disso não abriu mão.

Compraram feijão, farinha, rapadura, sal, cachaça e foram em socorro de Aparecida que não se alimentava há dois dias. Após o repasto deitaram à sombra de um Juazeiro comentando: — E agora Tição! O que faremos? — Ora! contaremos outra mentira para nos tirar dessa aflição, disse Tição. Seria perigoso contar outra mentira, mas, sem opção imaginaram uma, contando ao Caetano que ao caçarem a onça, encontraram um sujeito conhecido pela alcunha de ‘Faz Tudo’, um pistoleiro bem conhecido na região por suas perversidades. Esse sujeito nem mais se lembrava do tanto de homens que mandara para o outro mundo. — Sim, seu Caetano, foi “Faz Tudo” que exterminou nossa onça e ainda mandou um recado para o senhor: — Digam ao Caetano que acabei com a onça, e acabarei com ele também se reclamar.

Esse é o recado que Faz tudo mandou, e sarcasticamente, sorria imaginando sua cara, ao receber. Então, muito furioso Caetano disse: – Vocês dois criaram essa confusão, portanto a resolverão. A partir de agora, vocês dois são meus homens de confiança, e a primeira missão será dar cabo daquele enganador, e se não cumprirem minha ordem eu, pessoalmente darei fim em vocês dois. Agora saiam da minha frente e só voltem com a cabeça desse pistoleiro, afirmou o enraivecido homem. Mas, eu continuo querendo o couro da onça, conforme combinamos, vocês me devem e terão que pagar, portanto mostrem trabalho, se não a vida de vocês nada valerá.

— Tição! Não se avexe não, eu tenho três cartuchos na minha espingarda Lazarina, quando eu enxergar o homem, é só apertar o gatilho! — Não seja doido, não temos a menor chance de enfrentar o pistoleiro e não esqueça que nem nós o vimos! — Esqueceu que é uma mentira? — Acho que essa foi a última mentira que contamos. — Tadinha da minha mulher, ficará viúva tão cedo. —Só Deus pode nos salvar!!! Pagaremos com a vida a mentira contada. — Ouvindo você falar em Deus, lembrei-me que Deus tem um representante na terra. Vamos visitar o padre João de Deus e a ele vamos pedir socorro e perdão, somente ele pode nos salvar dessa aflição, disse Labareda.

Cedo da manhã chegaram à Igrejinha e contaram a história ao bondoso Padre João, e paciente o Padre escutou Labareda com seus lamentos e prometeu falar com Caetano, mas nada garantiu dizendo: — Verei o que posso fazer. Embora Caetano seja de coração duro, ainda teme a excomunhão. Peguem suas coisas e fujam para um distante lugar, de preferência para o Amazonas que fica no fim do Mundo, de lá escrevam, disse o bom Padre. Pela estrada que parecia um sem fim, três retirantes com matulões às costas e alpercatas nos pés caminhavam vestindo o manto sagrado do amor, arco-íris da vida. Tinham os olhos regados de sonhos e o coração festivo. Felizes e alegres fugiam do nada em busca do imaginário. Na exuberante e majestosa floresta amazônica plantariam mais sonhos verdes em águas plácidas.
Antonio de Albuquerque
Enviado por Antonio de Albuquerque em 21/05/2020
Alterado em 23/05/2020
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